(Ela) tem Caprichos Matinais LXXII


Do meu âmago respiro desejo profundo.
Dos meus lábios escorre vontade sôfrega.
Dos meus dedos eclodem espasmos repentinos.
Das minhas entranhas esvaio-me em saudade.

(Ela) tem Caprichos Matinais LXXXVII

Estranha-se a ausência. Sente-se na pele o vazio, a nudez do corpo despido, que se acha sozinho, desprovido da plenitude que outrora sentiu. Caminha-se em sobressalto, com o coração aos pulos, num trepidar nervoso, indagando-se mentalmente quando chegará a hora de voltar a provar, quando chegará a hora de voltar a sentir. Entranha-se a sensação de querer, de desejar muito, de implorar se for preciso. Abre-se a porta, acto mecânico, e vê-se chegar a memória do que se deseja, o vulto esguio e de alguma forma fugidio que lhe atormenta o corpo da mesma forma que lhe apoquenta a alma. Guloso, demasiado excitado, lança-se em direcção ao querer sem acautelar o corpóreo materializar do espaço em que se move, já não importa. Quer e quer muito. Quer agora. Precisa. Dobra-se e desdobra-se, indica o caminho. Sente, sem nunca tocar o chão, o rasgar do corpo, o locupletar da mente que um dia provou o que era o prazer e desconhece agora como evitar imitá-lo, repeti-lo, forjá-lo.

(Ela) tem Caprichos Matinais XCII

 

Preparemos um motim
Sejamos Sodoma e Gomorra
Entreguemos o corpo ao tumulto
Usufruamos da loucura

Roubemos prazer da confusão
Ofertemos tesão à multidão
Bebamos o sémen da fonte
Beijemos os lábios desconhecidos

Escravizemos  o corpo ao grilhão do prazer
Forgemos alianças libertando o querer
Conspiremos pelo desejo e pelo orgasmo
Iniciemos a revolta de vontades!




(Ela) tem Caprichos Matinais LXXXIX

De algum modo que não conseguiam ainda explicar, e o mais certo era não precisarem, sentiam-se tranquilos e eram unânimes em concordar que haviam nascido para entregas magníficas. Eram entregas desprendidas, apenas permeadas pela procura do prazer absoluto. Deixaram-se de pudores e decidiram entregar os seus corpos em prol de um bem maior. Não havia elos quebrados, alianças desfeitas. Ao invés, desenhavam triângulos puros, círculos viciosos de luxúria plena, emaranhados de corpos emanando volúpia. Nenhum se achava perdido. Na verdade, sempre que decidiam mexer na composição, sempre se achavam preenchidos. O objectivo era, sabiam-no, ir de encontro às vontades de todos, proporcionando-se tudo. Por entre gestos lânguidos e poderosos, línguas e bocas, beijos e mãos, saliva e suor, tocavam-se com a ânsia de dar tudo para receber tudo. Elas sentiam-se no prazer que estavam habituadas a receber, dando-o agora em igual medida. Ele dividia-se numa multiplicação soberana, sentindo o orgasmo de uma para logo saciar a outra. Elas bebiam-se, lambiam os resquícios de prazer que a excitação lhes fazia jorrar do centro do seu ser, apertavam os seios cujos mamilos se encontravam irremediavelmente erectos. Assemelhavam-se em tudo ao que viam nele. Erecto, rijo, grande e insaciável. Eram três corpos, singelos e aparentemente soltos mas na verdade eram unos, presos a uma corrente de desejo e partilha.

(Ela) tem Caprichos Matinais XLV

Sou má. Sou indomável. Sou enervante. Sou teimosa.
Domina-me este espírito voraz. Castiga-me o corpo perfurando-me a alma.

(Ela) tem Caprichos Matinais XCVIII

Quero a língua sabedora dos lugares de mim
Quero o sal da boca misturado no doce carmim
Quero o arrepio do prazer a aproximar-se do fim
Quero o toque enlaçado dos lábios que abro assim

Quero o contorcer violento do corpo em festim
Quero a viagem do desejo, daqui até ao confim
Quero o sabor do meu sabor na boca carmesim
Quero arder na paixão de me preencher enfim

Quero o sofrer do tremer em frenesim
Quero a saliva a brotar grosseiramente em mim
Quero o gemer deliciado do lamber de cetim
Quero o orgasmo saborosamente desesperado, quero sim!


 

(Ela) tem Caprichos Matinais XLVIII

É que hoje tenho tanto carinho para dar!!
(And we can't let it go to waste)

(Ela) tem Caprichos Matinais LXII

Surrupias-me a voz substituindo-a por um satisfeito gemer, um ténue arfar. Arqueias-me as costas contorcendo-me o corpo a cada investida sequiosa da tua língua. Olhas-me. Vês de perto o que provocas em mim. Num crescendo, levas-me ao limite e páras subitamente. Indago-te sem precisar de abrir a boca. Respondes num ímpeto, substituindo-a por ti. Enches-me da vontade que me tens, abusas do meu querer e saboreias-me a essência até à exaustão. Sucumbimos e tombamos num latente antevir de mais. Sabemos que ainda queremos mais.

(Ela) tem Caprichos Matinais LVIII

Sem razão aparente, recordei-me das aventuras com Ela. Recordei-me que acima de tudo ela me fez sentir viva, tomou as rédeas do meu ser e fez de mim alguém novo. Percorreu-me a espinha um arrepio sôfrego que culminou num sorriso matreiro e num palpitar nela. Cheguei à conclusão que tenho saudades. Acho que está na hora de uma... festa do pijama!

(Ela) tem Caprichos Matinais XCIII

Pergunto-me se saberás o quanto gosto de te sentir assim. Se os movimentos da minha língua te proporcionam o mesmo prazer que sentir o teu prazer me provoca a mim. Se o pegar, se o manobrar, se o ajeitar que os meus dedos, ao fecharem-se sobre ele, descrevendo um círculo, te estimulam tanto como a mim me fazem rodopiar a mente e encharcar o corpo. Se o engolir, fazendo-te desaparecer na minha boca para logo te soltar escorrendo da saliva que te fará escorregar para dentro dela, te multiplicam o desejo. Se quererás que abrande e acelere e abrande e acelere novamente. Pergunto-me se saberás o quanto gosto de te sentir assim. Se o resquício que soltas após investidas cuidadas da língua que em ti se delicia, se reflecte em prazer, em gostar, em saciar. Se saberás que o teu sabor é de tal forma único, de tal forma inebriante que gemo à medida do teu ofegar, do teu gemer. Se saberás que sentir-te crescer nas mãos que te afagam, nos lábios que te beijam, me fazem crescer, me fazem ansiar de vontade, me fazem querer saltar etapas e sentir-te logo. Pergunto-me se saberás o quanto gosto de te sentir assim. Se saberás que só pelo mero imaginar, pelo mero materializar das memórias que me deste nesta mente perversa, me encontro difusa e obtusa, incapaz de me concentrar, entregue ao prazer da vontade, num palpitar trepidante, num enlear de fios que se deixam jorrar de mim, que sinto nervosamente nela, que me aceleram o ritmo cardíaco, que me instigam a procurar-me, que me impelem a intimar-te a vires entregar-me o que mais quero, a vires saciar-me a fome que invariavelmente sinto de ti.

(Ela) tem Caprichos Matinais LXXI

Depois de ti, fico assim. Com as vontades à flor da pele, com o espírito toldado pelo desejo de te voltar a ter aqui, em mim. Depois de ti, preencho o vazio com o que me deixaste entranhado no corpo e gravado em brasa no meu peito.

(Ela) tem Caprichos Matinais LXIII

Embalaste-me num sono aconchegante, evocando as palavras que mentalmente me levaram a estar contigo. As palavras que configuraram um guião de uma, para já, curta-metragem. Um guião escrito à nossa medida e à medida da nossa vontade. Embalaste-me na vontade do fazer acontecer.

(Ela) tem Caprichos Matinais LXXIX

O momento dócil e carinhoso em que envolvemos os braços um no outro num abraço apertado e os nosso lábios se tocam para expurgar a saudade negra e desesperante, depressa dá lugar à necessidade da carne, do corpo. Vejo o teu rosto, compenetrado. Oiço o teu gemido sôfrego e as tuas palavras, sempre as certas para me elevar a mente ao mais alto grau de excitação. Sinto as tuas mãos que me seguram a anca, como que ajeitando-me para melhor te servir. Vergo-me para ti, ofereço-te-me. Mostro-te como te quero, como te preciso e sem demoras entras em mim. Num vaivém viciante, paulatino e voraz, o prazer é incomensurável. A entrega é pura, plena e torneada pela certeza de que o que temos transcende o vulgar. É íntimo.

(Ela) tem Caprichos Matinais LXVII

“The heaviest of burdens crushes us, we sink beneath it, it pins us to the ground. But in love poetry of every age, the woman longs to be weighed down by the man's body.The heaviest of burdens is therefore simultaneously an image of life's most intense fulfillment. The heavier the burden, the closer our lives come to the earth, the more real and truthful they become. Conversely, the absolute absence of burden causes man to be lighter than air, to soar into heights, take leave of the earth and his earthly being, and become only half real, his movements as free as they are insignificant. What then shall we choose? Weight or lightness?”

(Milan Kundera,  The Unbearable Lightness of Being)

(Ela) tem Caprichos Matinais LXXXIV

Hoje não tens querer. Não te dou essa opção. A tua liberdade é norteada pelo meu querer e eu hoje quero assim. Enlaço-te e algemo-te em mim e procuro sentir a tua língua hábil, quente e ardilosa a apoderar-se do prazer que cada lambidela me provoca. Quero que encontres o meu ponto de ebulição e me leves à quase loucura, aquela que me deixa a planar entre o celestial e o terreno, aquela que me transporta para lá do ser sem nunca tirar os pés do chão. Quero explodir na tua boca e oferecer-te o leitmotif que me permeia o corpo sempre que o invades, sempre que o tomas como teu.

(Ela) tem Caprichos Matinais XCIV


Ela demorava-se em intervalos de tempo inesgotáveis. Saboreava-o absorta, apenas chamada à realidade pelos gemeres e contorções do corpo que manuseava. Sentia, em cada engolir, em cada lamber, em cada chupar, o prazer que lhe proporcionava. Gostava de prolongar os hiatos de tempo em que o tomava nas mãos e o tratava. Deliciava-se com o sabor adocicado e tão característico que dele surgia, sentia-se detentora do poder de o coagir, de o encaminhar rumo ao lugar onde o queria encontrar, de o endurecer apenas com o toque das suas mãos, com o beijo da sua boca, com o entrelaçar da sua língua. 
Ele tomava o seu tempo. Excitava-a lentamente, começando com suaves carícias de uma língua que demonstrava uma destreza invulgar. Pequenos toques ritmados que a elevavam alto na escala do prazer. Gostava de sentir progressivamente o grau da sua excitação, regozijava quando os seus gemidos se assemelhavam a gritos mudos, a convulsões de desejo. Lambia, sabiamente, os pontos que a deixavam fora de si, segurava-a com mestria mas libertando-a sempre que o prazer era manifestamente incontrolável. Saboreava o suco que dela jorrava sempre que o sentia por perto devolvendo-lho depois no beijo que trocavam e selava a paixão que os seus corpos unidos consubstanciavam.

"Let's call it the love making of the mouth."

(Ela) tem Caprichos Matinais LVI

O emaranhado de corpos circunscreve-nos. Cerca-nos. Delimita-nos.
A premência do êxtase move-nos. Orienta-nos. Guia-nos.
Tolhe-se a ligeireza numa brutalidade consentida.

(Ela) tem Caprichos Matinais LVII

Começamos devagar. Abrimos os olhos. Sorrimos torpemente ainda embalados pelo silêncio da noite. Os olhos preguiçosos esforçam-se por contrariar a claridade que entra pela janela. Acordamos. Roçamos os corpos numa dança envolvente, num encaixe sublime. Arrebito-me contra ti. Decides que me queres. Eu decido que quero assim.

(Ela) tem caprichos Matinais LXXXVI

Loucura tão cega, tens-me o mundo ao contrário. 

Toca ao de leve, num beijo perscrutador. Testa-lhe a vontade, afiança-lhe o destino, ergue-lhe a vida. Consegue saber pela rigidez que se impõe que é aguardada. A boca sequiosa de o provar, esboça um sorriso, malandro, e solta as palavras que ele gosta de ouvir. Vagarosamente, dispõe-se a tomá-lo nas suas mãos e a explorar as potencialidades que sabe querer. De um sopro só, engole-o em toda a sua extensão, toca-lhe bem fundo na garganta, geme em esforço mas elevada pelo prazer de o ter todo. Recomeça. Lambe, envolvendo-o nos fios da saliva que o tornam escorregadio. Chupa, detendo-se na ponta, desenhando pequenos círculos com a língua que o prova e se inebria pelo sabor que lhe escapa do prazer que ela lhe dá a sentir. Manobra-o à sua feição, alternando a velocidade à velocidade que a turbulência do desejo lhe aflora no peito e se repercute nela, querendo senti-lo a entrar e sair, humedecido pelo prazer que lhe escorre sempre que se deixa perder nele.

(Ela) tem Caprichos Matinais L

Entusiasmei-me um pouco antes de chegares...está do teu agrado?