Face to face

Sentia-lhe a falta. De cada vez que se achava sozinha, entregue aos pensamentos mais indecentes, aqueles que se intrometem entre as sinapses mais pacíficas, as rotineiras, as banais. Sentia-lhe a falta no toque que sabia seu, no deslizar suave das mãos por cada recanto do corpo que lhe colocava à disposição, no apertar das nádegas como que a dizer "és minha", no conferir da excitação entre as suas pernas. Sentia-lhe a falta. E instalava-se-lhe na mente a imagem dos seus corpos em uníssono, saboreando-se, degustando-se, desafiando-se, querendo-se. Sentia-lhe a falta na boca, no beijo que amava, no sentir do seu membro elevar-se com o tornear da sua língua, no sabor que lhe deixava de cada vez que o provava. Sentia-lhe a falta no cheiro que lhe deixava entranhado na memória, no aroma da sua pele tão inebriante, tão viciante, tão seu. Sentia-lhe a falta na própria falta que ele lhe fazia. Porque de cada vez que o beijava, havia já a certeza de que o beijava consumando um até logo, um até amanhã, um até sempre.

Face to Face




O orgasmo, momento de expiação por excelência é físico e é psicológico. Tenho uma curiosidade absurda acerca do rosto do orgasmo. Cada pessoa manifesta o momento de prazer máximo de uma forma muito própria. Gosto de a observar. Gosto de a guardar na minha memória visual. Gosto de ver os traços de luxúria e libertação, a sofreguidão de um prazer efémero mas divino, o esgar de fúria libidinosa. O doce sucumbir do corpo à explosão sensorial mais pura e desinteressada que existe.



"Then as he began to move, in the sudden helpless orgasm, there awoke in her new strange thrills rippling inside her. Rippling, rippling, rippling, like a flapping overlapping of soft flames, soft as feathers, running to points of brilliance, exquisite and melting her all molten inside. It was like bells rippling up and up to a culmination. She lay unconscious of the wild little cries she uttered at the last." 

D.H. Lawrence, Lady Chatterley's Lover

Face to face


Se pudesse adormecer agora, levaria para os sonhos as imagens que guardo acordada. Envolver-me-ia no conforto do teu abraço e percorreria cada segundo do nosso sexo em verdadeiras reminiscências do prazer que sempre, sempre me dás. Sinto, com inigualável certeza que ainda jorram de mim os sinais da tua presença, escorregam-me pelas pernas denunciando-te em mim. Saboreio, com a luxúria do insaciável, o líquido que deixaste em mim, doce e quente, tão teu, tão nosso. Misturados. E o sabor do nosso sabor, percorre-me o corpo, deleitando-me o gosto, amenizando-me o fogo para logo depois o voltar a instigar. Permaneces em mim, sacias-me a fome, corrompes-me os sentidos, provocas-me a tesão. Por mais que queira, não consigo mentir. Não consigo ocultar o quanto te quero. Está plasmado nos olhos que te absorvem, no corpo que se-te oferece sem esperar nada em troca, no grito mudo que a minha boca contém a cada orgasmo que me dás a sentir.

Face to Face

Olha para ti, olha bem. Olha e vê o que eu vejo. O espelho do desejo reflecte o sabor e a carícia, a carícia que gosto de te sentir sentir, o prazer que gosto de te sentir sentir. Olha para ti, olha bem. Olha e vê como te gosto de ter em mim, como gosto de me lambuzar de ti, de me impregnar do teu líquido, de saborear o que escorre de ti com a vontade que a saudade criou e hiperbolizou. Olha para ti, olha bem. Olha e vê o que eu sinto. Está-me descrito nos olhos que furiosos te atropelam em ânsia de te devorar. Dizes-me, entre gemidos que estou sempre cheia de vontade. Quem me pode recriminar? Sou de excessos, de abusos, de exaustões, de cansar o corpo e preencher-me de prazer. Olha para ti, olha bem. Olha como é belo o teu orgasmo, olha como me delicio ao ver-te espalhar a semente do teu querer. Olha para ti, olha bem. Olha como te sinto e te quero. Olha como me deixas molhada e desesperada. Olha como me deixas possuída, roída de desejo de te sentir entrar e sair de mim, entrar e sair e permanecer. Olha para ti, olha bem. Olha e convence-te que és o meu objecto de luxúria, que és a carne que quero roer e o corpo que quero ter, entrelaçado, apertado, entregue e abusado. Olha para ti, olha bem. Olha e vê-me como te vejo a ti. Louca de tesão, húmida de excitação, presente mas ausente, explorando o prazer consumado, a ilusão, a vida que me renovas em cada investida, em cada orgasmo presenteado, em cada espasmo torneado. Vês-me?