In motion





Os seus corpos desenham movimentos imbuídos de sensações. Encontram-se em constante mutação permeados pelo desejo que os consome e sobre o qual concluem não lhe conhecer fim. Parece que, desde o dia em que as suas mãos pressentiram o toque, desde o dia em que se deixaram invadir pelo aroma da pele, desde o dia em que os seus lábios saborearam o beijo inaugural, desde o dia em que se encaixaram um no outro, que a linha das suas vidas iniciou uma rota sem retorno para não mais deixarem de se querer. Encontram um no outro, a beleza que idealizaram, o vício a que sempre quiseram ver-se entregues, o prazer que lhes invade as entranhas e os queima de dentro para fora, o desejo de se alimentarem da vida que morre e (re)nasce com cada entrega. Como num guião, protagonizam as acções tendentes ao culminar. Discorrem em diálogos mudos numa linguagem gestual que inventaram para eles e da qual são exímios aprendizes. E, no entremeio, prolongam a história, prolongam o prazer de se tomarem em pretenciosos volte-face, descobrindo em cada gesto, em cada posição o augúrio de uma explosão, de um final (feliz).

In motion

Difícil é sossegar o desassossego que se instala e parece querer saltar do peito. Difícil é respirar, abrandar o ritmo que se impõe numa entrega, que sufoca as palavras e culmina num grito de desesperante prazer. Difícil é não ouvir o compasso descompassado do coração irrigado pela paixão, instigado pelo desejo, movido pelo ímpeto de um beijo, de um toque, de um carnal instinto. Difícil é parar quando se quer sempre, quando se quer sempre mais.

In motion

Reunia em si a força de um gigante e a vontade de todos os homens. Concentrava no corpo a energia e o desejo, de tal forma que lhe era difícil ficar indiferente a um saciar, a uma entrega, a um rodopiar de prazeres e a um sacudir da carne. Os músculos, treinados pela prática, dominados pela experiência, conferiam-lhe a destreza de se saber mover sem guia, de se saber dar sem poupar esforços. Via em cada movimento, mais um gesto tendente ao prazer, mais uma linha transposta tendente ao orgasmo que queria não só ter como oferecer, mais um gemer tendente ao saborear dos corpos e ao fruir da tesão, magnífica, sempre magnífica. Entregava-se sempre, dando tudo, fazendo o que estivesse ao seu alcance para que a palavra de ordem fosse sempre mais, para que os corpos terminassem cansados mas satisfeitos, para que os ofegares contivessem sorrisos e o descanso fosse realmente merecido. Enterrava-se até ao fundo da gruta, procurando tocar-lhe no fundo, aninhando-se, roçando-se, como que cavando o espaço onde queria pertencer e ali morrer, numa felicidade desesperante, numa sofreguidão ansiada, num definhar de prazer, num exercício constante de insaciáveis paixões.

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A verdade é que o corpo é um ditador. Impõe-nos as suas regras e os seus princípios, as suas ideologias e vontades. Cerceia-nos a liberdade, agrilhoa-nos os sentidos, determina-nos o futuro sem sequer nos perguntar. É egoísta, autocrático, embriagado pelo poder de nos manipular e consegue-o sem resistência, sem rebeliões, sem contestações. Somos súbditos das suas leis, que lança ao desbarato e entram em vigor consoante os seus caprichos e apetites, sem aviso prévio ou tempo de transição. Somos marionetas e peões dos seus ímpetos, das suas ordenações de libido, somos peças de xadrez no jogo da sua vontade, da sua auto satisfação, da sua masturbação de poder. Somos vassalos da sua luxúria, subjugados pelo prazer que a sua veneração nos confere, amantes da sua figura que enaltecemos em detrimento de qualquer outro líder porque sabemos que afinal de contas, somos meio para alcançar um fim. Mantemo-nos silenciosos, incapazes de o contrariar, de nos expressar contra os seus desígnios. Beijamos-lhe o anel, curvados perante o seu inegável monopólio de nós mesmos. E sucumbimos, à falta que o prazer nos faz, ao vazio deixado no espaço de outro corpo entregue a nós, à falta de um orgasmo, a recompensa pela nossa fidelidade. O corpo exige, não pede. O corpo manda, não questiona. O corpo impõe, não aguarda. O regime apertou-me o cerco, marcou-me traidora da pátria do prazer, exigiu-me que me saciasse, que lhe entregasse a dízima diária para continuar a usufruir das delícias do reino sob pena de abstinência forçada. Seja feita a sua vontade!