Oh Sweet Idleness

E sem mais delongas, ela permitiu-se. Deixou os sentimentos ocuparem o lugar correcto, deixou-os tomar forma, ganhar corpo, encaixarem no espaço que lhes era destinado. Há já algum tempo que os deixava deambular fugidios como o fumo áspero de um cigarro, incoerentes, incertos. Havia-se furtado a oferecer-lhes um recipiente onde permanecer por não saber o que fazer com eles, por não saber que destino lhes dar. Vagueavam-lhe no espírito como penas a flutuar ao som de uma brisa. Umas vezes ignorava-os apesar da sua presença latejante, do seu ecoar constante. Outras, deixava-se embrenhar e sucumbir. Caía, de braços estendidos, de olhos fechados, sem rede de segurança, sem conseguir prever se a queda a mataria ou a faria sentir-se ainda mais viva. Acontecia sempre que lhe abria a porta, sempre que se deixava preencher das carícias que o seu toque sabiam tão perfeitamente desenhar. Acontecia sempre que o deixava entrar no seu mundo para tão só o completar, sempre que conjugavam, juntos, o verbo amar. Acontecia sempre que, instigados pelo desejo, esse agente provocador, uniam os corpos insaciáveis e se entregavam ao prazer de se explorarem mutua e indiferenciadamente. Acontecia desde sempre, desde o início. Mas, desta vez, decidiu decidir-se. Decidiu conformar-se e assumir a vitória da paixão sobre a razão, decidiu resignar-se e entregar-se ao firmamento porque era lá que amiúde o avistava quando não o tinha junto a si.

Oh Sweet Idleness

Sobrava-lhe tempo. O dia ansiado e planeado ao mínimo detalhe havia chegado. Acordara cedo. Queria demorar-se na preparação, no ritual que fazia parte do seu subconsciente e que só o realizando fecharia a porta nas suas costas com a certeza de que nada tinha sido esquecido. O banho, relaxante e envolvente havia-lhe despertado os sentidos. Sentidos que agora estavam alerta, activos e particularmente sensíveis. Notou-o quando envolvendo o corpo no seu creme favorito, sentiu a excitação na ponta dos dedos. Trémula, não conseguiu abster-se de se tocar e constatar sem espanto que de si jorravam já os sinais do desejo que lhe preenchia a vontade. Decidiu não dar continuidade. Queria estar intacta, quase pura e dar-se plenamente. 
Cuidadosamente dispôs a roupa em cima da cama, escolhida com o máximo pormenor para agradar e despertar volúpia nos olhos que a esperavam. Os espelhos que a rodeavam mostravam a sensualidade que emanava em cada gesto, em cada rodopiar de seda e renda que aos poucos tomavam forma no seu corpo. As suas formas, esculpidas a cinzel denotavam no entanto a frieza de uma pedra.  Sabia que isso mudaria em breve. Quando as mãos que ansiava lhe moldassem as curvas, lhe aquecessem a pele e lhe incendiassem a alma. Quando os seus corpos em lava se fundissem de novo num abraço consumado de paixão e prazer. Quando a roupa que lhe embelezava a figura se tornasse secundária e apenas o toque e união dos seus corpos fosse importante.

Oh Sweet Idleness



Sentiu-se um silêncio ensurdecedor. Ambas proferiam palavras mas nenhuma se encontrava em condições de as entender. Ambas sabiam que estavam prestes a cometer uma loucura e sorriam nervosamente. Perdidas por entre um copo de vinho e comida que mal conseguiam saborear, o diálogo pouco importava. Deram por si em frente ao espelho da casa-de-banho. Cúmplices. Olhavam-se mutuamente. Mantinha-se sempre a um passo atrás dela como se a quisesse apreciar por trás, como se quisesse avaliar o que iria ter em mãos daí a instantes. Entraram para o último compartimento do lado direito. Mal a porta se fechou, ela lançou-se-lhe aos lábios. Sedenta de a beijar, de a trincar, de a molhar, num transe intenso. Notava-se que a razão já tinha abandonado aquele corpo há algum tempo e, naquele momento, queria aproveitar ao máximo e durante o máximo tempo possível. As mãos dela, instintivamente, começaram a procurar pele por debaixo da roupa. Primeiro, as costas. Depois, os seios. Apalpou, massajou, apertou. Tentou desapertar as suas calças e aceder também à textura da sua pele. Mas ela não deixava. Ela queria-a. Queria-a dominar. E subjugava-a. Lançou-se sobre os seus seios. Ora um, ora outro, chupava, trincava, puxava, lambia. Ela, de cima, contemplava. E não acreditava que aquilo estava  a acontecer, num local público, com pessoas no compartimento ao lado e a entrarem e saírem no quotidiano das suas vidas. Sem hesitar, meteu a mão por dentro das suas cuequinhas, sem nunca separar os lábios dos seus seios. Primeiro, afastou-lhe as pernas. A sua mão precisava de espaço para se mexer e ela ordenou-lhe com um simples toque. Acedeu. Massajou suavemente, mais rápido depois. Masturbou-a intensamente. Estava completamente fora de si e perdeu a força nas pernas no momento em que decide entrar nela. Ao mesmo tempo que o fez, trincou-lhe corajosamente o mamilo. Riu, suspirou, gemeu, arfou. Hipnotizadas, sem noção do lugar onde se encontravam, sedentas de prazer, foram chamadas à realidade. Sentiram o risco de serem apanhadas e foram obrigadas a abandonar os seus intentos. 
"Parece-me que te fiquei a dever um."
"Parece que sim...Logo tratamos disso!"

Oh Sweet Idleness

No princípio eram estranhos, completamente aparte um do outro. Eram singulares indivíduos cujas vidas nunca se haviam cruzado, cujos mundos nunca se haviam sobreposto. Não imaginavam que o que os movia individualmente se haveria de tornar o que os movia enquanto amantes, enquanto parceiros, enquanto enamorados. Aos poucos foram-se tornando a melhor parte um do outro. Fechados entre as quatro paredes que delimitavam o seu tempo, tornaram-se cúmplices. E a cama que os recebia, tornou-se confidente dos despojos de prazer que entregavam em cada movimento dos corpos que possuíam, em cada beijo capaz de fazer parar o tempo, em cada engolir do desejo que extravasavam em explosões e turbilhões sensoriais. Deixavam-se secos, sem animus decidendi, apenas permeados pela vontade de serem cada vez mais um do outro, de moldarem os seus corpos à medida do querer que os impulsionava na direcção um do outro, de guardarem na memória o rosto do prazer que se ofereciam mutuamente. No princípio eram estranhos. Agora são estranhos juntos.


People are strange when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked when you're unwanted
Streets are uneven when you're down

When you're strange

Faces come out of the rain
When you're strange
No one remembers your name
When you're strange
When you're strange
When you're strange 

The Doors

Oh Sweet Idleness

Acharam o refúgio que julgavam já não existir. Os cotovelos que lhe descansam no peito, as mãos que desinteressadamente lhe percorrem a pele, os pés que se enlaçam num sorrir jocoso, o olhar terno que depositam um no outro, as palavras doces que soltam entre suspiros e abraços apertados com a força que lhes vem do querer prolongar ao máximo a sua estadia. Acharam no corpo que se lhes oferece o descanso e a luta. Tão depressa coexistiam pacificamente, lânguida e arrastadamente como rebolavam intensa e incessantemente no sexo e prazer que sabiam ser esmagadoramente incomparável. Acharam o lugar onde, se a vontade lhes fosse feita, permaneceriam sem fim e onde se debelariam sem tréguas contra o que lhes é contra.

Oh Sweet Idleness

"Odors have a power of persuasion stronger than that of words, appearances, emotions, or will. The persuasive power of an odor can't be fended off, it enters into us like breath into our lungs, it fills us up, imbues us totally. There is no remedy for it.”

 In "Perfume: The Story of a Murderer" by Patrick Süskind


Era escrava do desejo. Os grilhões invisíveis que se fixaram na sua pele, impediam-na de pensar com clareza. Sentia que o espaço entre aqueles dois corpos se tornava exíguo mesmo quando ele não estava porque afinal de contas, pensando bem, era junto dela que se encontrava sempre. Inscrito na pele, gravado no coração, abraçado sem retorno. O aroma do seu corpo, aquele que lhe garantia a inebriava sempre, lhe transformava o semblante, lhe viciava os sentidos, tomava conta dela, do seu sexo, do seu querer. Envolvia-a de tal forma que acabava por, erroneamente, o consubstanciar ali. E sorrir face à perspectiva de lhe oferecer o corpo sem cuidar de mais nada, sem cuidar do que se passava lá fora, sem cuidar do tempo, sem cuidar de ninguém. Era escrava daquele corpo que a usava e instigava a deixar-se usar sempre. A soltar as amarras e viajar no mar do seu prazer, a querer dar-lhe tudo, dar-se toda, beber tudo, bebê-lo todo. Era escrava do seu cheiro, que a constringia, a viciava, lhe fazia ser impossível dissociar o aroma que lhe deixava cravado na pele do prazer que almejava sentir, dissociar o aroma que deixava a pairar do rosto que inconscientemente sabia ser seu, sabia querer, sabia amar.

Oh Sweet Idleness

Oscilo entre a ternura e a loucura. A dinâmica é difícil de acompanhar e tanto me vejo morrer nos teus braços, alheada do mundo, docemente abraçada ao teu corpo que se encaixa no meu, como me vejo viva no teu olhar que me absorve, numa loucura alucinante, num querer desmedido do corpo que sabes tão bem manusear. Hesito sucumbir ao vício que tenho de te provar sempre, de te pegar e afagar, de te fazer desaparecer na minha boca, de apertar e chupar, de lamber e circundar. Regozijo quando me deixas saciar e te sinto pronto a receber o toque da minha língua. Regozijo quando, saboreando-te, sinto o sabor da excitação que já sentes, o líquido que me atormenta os sentidos e me recorda que o vício de ti é inabalável, impossível de afastar.

Oh Sweet Idleness


Oh Sweet Idleness


Dá-me um beijo e sorri. Sorri de satisfação, de me veres, de me quereres, de me sentires perto. Pousa a mão na minha anca enquanto te encostas ao meu corpo, apalpa-me. Molda a tua mão, côncava, e esfrega-a na curva do meu peito, na espiral da minha cintura. Diz-me que sou bonita, que te preocupa a cobiça, que me pretendes única e singela, só para ti. Dá-me um beijo e sorri. Desta vez de tesão. Diz-me que te queres deitar a meu lado, que me queres dilacerar a pele de tanto me acariciar. Diz-me que me queres provar, que me queres assim sempre molhada só por ti, que deliras com o meu sabor. Diz-me que sou tua e como gostas de me foder. Dá-me um beijo e sorri. Desta vez de prazer. Fica abraçado a mim, saboreando o nosso final, olhando-me nos olhos e bocejando palavras sem nexo. Diz-me que sou o teu vício, que não é possível gostar-se tanto assim. Diz-me que me odeias por isso mas me queres tanto ou mais. Dá-me um beijo e sorri. Desta vez de ternura. Dá-me a mão e segura-me, deseja-me sempre aqui. Dá-me um beijo e sorri que eu ficarei toda em ti.

Oh Sweet Idleness

Há corpos que nos seduzem de tal forma que nos sentimos impotentes ao tê-los ao nosso alcance. São corpos que, ao vislumbrá-los, apetece retê-los, aprisioná-los, guardar a sua essência e fazê-la nossa para desfrutar na ausência, para usufruir na solidão. Há corpos que nos embriagam de si com uma tal força, que damos por nós hipnotizados, respirando a contemplação da sua beleza, suspirando por tocá-los, por sentir a textura da pele, por nos encostarmos a eles para não mais os abandonar. Há corpos que nos despertam o mais profundo sentimento de luxúria, que se imortalizam no nosso olhar, que mexem com cada célula viva do nosso ser. São corpos imbuídos da perfeição que o nosso próprio corpo almeja e em cujos subterfúgios nos perdemos e ambicionamos encontrar o mais sublime prazer. Há corpos que de tão apetecíveis nos fazem palpitar as entranhas, nos fazem sucumbir de desejo, nos queimam a pele, marcando-nos para sempre, permanecendo eternos no mapa das nossas vidas.

Viu-o assim, de relance, enquanto se aninhava mais um pouco na preguiça dos lençóis. Esboçou um sorriso torpe e soube, logo ali, que o corpo que ainda há pouco tinha usado, tinha de ser seu, sempre assim.

Oh Sweet Idleness

O corpo dela era um brinquedo, um joguete nas suas mãos, um peão a que dava corda e rodopiava sem parar e sem destino e que fazia as suas delícias, dele que lhe manobrava os fios como que se de uma marioneta se tratasse. O corpo dela era uma tábua rasa, uma folha em branco onde ele escrevia e rabiscava, onde caligrafava momentos e descrevia sensações, onde emendava e rasurava a seu bel prazer, onde desenhava emoções e lhe imprimia devoções. O corpo dela era seu para usar, para movimentar e idolatrar, para abusar e saborear, para ter sem reservas, sem pudores, sem interjeições desprimorosas. O corpo dela era seu para explorar, para descobrir, para testar e aprender as suas particularidades, as suas acções e reacções, os seus gostos e fragilidades, as suas manhas e vontades, os seus desejos e saciares. O corpo dela era um livro aberto, uma sebenta repleta de apontamentos de prazer, páginas e páginas de palavras lançadas em alvoroço, com salpicos de tinta permanente, borrões deixados no êxtase das entregas, em histórias vividas entre os dois, em orgasmos sapientes da luxúria e da paixão que pingavam nos lençóis e permaneciam como marcas impossíveis de apagar.