Points of View #8

"-Não és obrigada a foder mesmo quando tens a tua mãe em casa, pois não? Não podes evitar ao menos isso?
-Não. Tenho de fazer tudo. Foder, chupar. Tudo. Cozinhar. Todas essas substâncias que entram e saem da boca das pessoas. Às vezes é a sensação que dá. Tenho de fazer tudo bem e de cara alegre. Ser um poço de satisfação.
-É difícil dar satisfação a pedido.
-Lá isso é.
-Se calhar o melhor era seres puta, e pronto.
-Oh, acho que não ia ser uma boa puta.
-Serias uma puta maravilhosa.
-Achas que sim? Que tipo de puta seria? Não me vejo a encaixar na ideia geral que as pessoas têm das putas, seja qual for essa ideia, percebes?
-Deves estar a brincar.
-Teria de ser tipo matrona, não achas?
-Ah, estou a ver... para teres clientes daqueles que querem disciplina. O falar fino e o olhar gélido.
-Pois, pessoas que querem que a mestra respeitável lhes mostre como se faz.
-Sim, podias ganhar dinheiro assim.
-Hum. O dinheiro fazia-me jeito. É uma ideia."

Philip Roth em Engano


Points of View #11

"Um homem jamais pode entender o tipo de solidão que uma mulher experimenta. Um homem se deita sobre o útero da mulher apenas para se fortalecer, ele se nutre desta fusão, se ergue e vai ao mundo, a seu trabalho, a sua batalha, sua arte. Ele não é solitário. Ele é ocupado. A memória de nadar no líquido aminótico lhe dá energia, completude. A mulher pode ser ocupada também, mas ela se sente vazia. Sensualidade para ela não é apenas uma onda de prazer em que ela se banhou, uma carga elétrica de prazer no contato com outra. Quando o homem se deita sobre o útero dela, ela é preenchida, cada ato de amor, ter o homem dentro dela, um ato de nascer e renascer, carregar uma criança e carregar um homem. Toda vez que o homem deita em seu útero se renova no desejo de agir, de ser. Mas para uma mulher, o climax não é o nascimento, mas o momento em que o homem descansa dentro dela."

Anaïs Nin

Points of View #6

"No ano de meus noventa anos quis-me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno, você vai ver."

Gabriel García Márquez in Memórias de Minhas Putas Tristes.

Points of View #2


Points of View #10


"O que é a coquetterie? Pode talvez dizer-se que é um comportamento que deve sugerir que a aproximação sexual é possível, sem que essa eventualidade possa ser tida como certa. Ou, por outras palavras, a coquetterie é uma promessa de coito, mas uma promessa sem garantias.
Tereza encontra-se de pé atrás do balcão do bar e os clientes a quem serve bebidas passam o tempo a meter-se com ela. Ser-lhe-á desagradável essa onda contínua de cumprimentos, de subentendidos, de anedotas pesadas, de convites, de sorrisos e olhares? De forma nenhuma. Sente um desejo incontrolável de oferecer o corpo (aquele corpo estranho que gostaria de expulsar para longe), de oferecê-lo a essa ressaca.
Tomas não se cansa de insistir que, entre o amor e o acto de amor, há todo um universo. Tereza recusava-se a admiti-lo. Agora, está permanentemente rodeada de homens que não lhe inspiram a mínima simpatia. O que sentiria se fosse para a cama com um deles? Tem vontade de experimentar, pelo menos sob essa forma de promessa sem compromisso que é a coquetterie.
Mas, não nos enganemos! Não procura vingar-se de Tomas. Só procura uma saída para o labirinto onde se encontra perdida. Sabe que lhe é pesada: leva as coisas demasiado a sério, leva tudo para o trágico, não consegue compreender a leveza e a alegre futilidade do amor físico. Gostava tanto de aprender a leveza! Gostava tanto que lhe ensinassem a deixar de ser anacrónica.
Se, para outras mulheres, a coquetterie é uma segunda natureza, uma rotina insignificante, para Tereza, daqui em diante ela será o campo de uma importante investigação que deverá fazer-lhe descobrir aquilo de que é capaz. Mas por ser assim tão importante, assim tão grave, a sua coquetterie perdeu toda a leveza, é forçada, expressamente convocada, excessiva. Rompeu-se o equilíbrio entre a promessa e a falta de garantias (no qual reside precisamente o autêntico virtuosismo da coquetterie!). Promete, mas sem a clareza suficiente, para fazer ver que a sua promessa não a compromete a nada. Ou, dito de outra maneira, todos julgam que é uma mulher extraordinariamente fácil. E depois, quando os homens reclamam o pagamento daquilo que pensam que lhes foi prometido, deparam com uma resistência inesperada que só pode encontrar explicação na refinada crueldade de Tereza."

Milan Kundera in "A Insustentável Leveza do Ser."

Points of view #3

“Será que considero esta inquietação, este desvario, como uma doença - ou como um talento? Como ambos? Pode ser. Ou será que é apenas um meio de fuga? Olhe, pelo menos não me encontro casado, aos trinta e poucos, com uma criatura decente, cujo corpo deixou de ter para mim qualquer interesse genuíno - pelo menos não tenho de ir para cama todas as noites com alguém que vez por outra marreto por obrigação, ao invés de desejo. Quero referir-me à horrenda depressão que algumas pessoas experimentam na hora de ir para a cama...Por outro lado, mesmo eu devo admitir que talvez exista, de uma certa perspectiva, algo um tanto deprimente quanto à minha situação, também. É claro que não posso ter tudo; é o que me parece. A questão, porém, que desejo enfrentar é: tenho eu alguma coisa?” 

Philip Roth in Portnoy's Complaint

Points of View #1

"A grande partida que nos pregam é que biologicamente nos tornamos íntimos antes de sabermos alguma coisa acerca da outra pessoa. No momento inicial compreendemos tudo: somos atraídos pela aparência um do outro, mas também intuímos a dimensão mais plena. E a atracção não tem de ser equivalente: ela é atraída por uma coisa, nós por outra. É o superficial, é a curiosidade, mas depois, zás!, é o carácter. É agradável que ela seja de Cuba, é agradável que a sua avó tenha sido isto e o seu avô aquilo, é agradável que eu toque piano e tenha um manuscrito de Kafka, mas tudo isso não passa de um desvio para chegarmos onde queremos. Faz parte do encantamento, suponho, mas é a parte que me faria sentir muito melhor se pudesse dispensá-la. O sexo é todo o encantamento necessário. Será que os homens,  uma vez excluído o sexo, continuariam a achar as mulheres assim tão encantadoras? Será que alguém, por ser de outro sexo, poderá achar o outro assim assim tão encantador se não fizer sexo com essa pessoa? Por quem mais nos sentimos encantados? Por ninguém.
Ela pensa: estou a dizer-lhe quem sou. Ele está interessado em quem sou. Isso é verdade, mas se estou curioso a respeito dela é porque quero fodê-la. Não preciso mostrar tanto interesse em Kafka e Velázquez. Enquanto travo esta conversa com ela estou a pensar: quanto tempo mais vou ter de suportar? Três horas? Quatro? Terei mesmo de ir até às oito horas? Vinte minutos a velar e já me pergunto: o que tem isto a ver com as suas mamas, e a sua pele, e o seu porte? A arte francesa de ser galanteador não tem interesse algum para mim. O ímpeto selvagem tem. Não, isto não é sedução. Isto é uma comédia. É a comédia de criar uma ligação que não chega a ser ligação-que não pode sequer competir com a ligação-criada sem artifício pela luxúria. Isto é um convencionalismo instantâneo, é oferecermo-nos de imediato alguma coisa em comum, é tentar transformar a luxúria em algo socialmente apropriado. No entanto, é a impropriedade radical que faz da luxúria a luxúria. Não, isto apenas traça o rumo, não em frente, mas para trás, para o impulso elementar. Não confundir o velar com o que está em causa. É claro que pode desenvolver-se qualquer outra coisa, mas essa qualquer coisa não tem nada que ver com comprar cortinas e edredões de penugem e tornarmo-nos membros da equipa evolutiva. O sistema evolutivo pode funcionar sem mim. Eu quero foder esta rapariga e, sem dúvida, terei de suportar alguma espécie de camuflagem, mas isso é um meio para alcançar um fim. Que parte disso é astúcia? Gostaria de pensar que é tudo."

Philip Roth in O animal Moribundo