Raconte-Moi Une Histoire


A boca tinha um travo amargo e pastoso. Os olhos, semicerrados, vislumbravam a muito custo a luz que provinha do sol que espreitava pelas portadas abertas. Pestanejou demoradamente sentindo o tumificar das pálpebras e um torpor na fronte. Levou as mãos aos olhos, retorcendo-as num gesto puramente infantil, esfregando a preguiça e bocejando solenemente. Reconheceu a paisagem lá fora mas estranhamente, o ângulo daquela fotografia parecia retorcido. Olhou em seu redor. Apercebeu-se num tumulto que não estava no seu refúgio. Aquelas quatro paredes não desenhavam a forma do seu quarto nem aquela cama se assemelhava ao manto que noite após noite lhe cobria o corpo despido. A decoração era indubitavelmente feminina. Os quadros na parede, orquídeas, as velas consumidas até à exaustão, os lençóis de cetim escorregadio, os móveis perfeitamente desalinhados, a cómoda repleta de bugigangas, pechisbeque, fios, brincos, anéis e perfumes. No chão, roupas engelhadas. As suas. As dela. Reconheceu uns sapatos de tacão vertiginosamente alto, pretos e brilhantes. Um vestido dourado com apliques de renda e estilo babydoll largado em fúria pela alcatifa. O cinto de ligas e respectivas meias, maltratadas e inutilizadas, vítimas da pressa e uma ânsia desmedida. A clutch entreaberta, pousada no cadeirão, continha um maço de cigarros estranhamente amassados. Em cima da mesa de centro, dois copos de balão e uma garrafa de vinho tinto largada ao acaso, vazia. Começava a juntar as peças do puzzle. Olhou para o seu lado direito. No leito irreconhecível, a seu lado, jazia um corpo. Esbelto e despido, silencioso, pele clara e harmoniosa. Não era preciso ser vidente para saber o que tinha acontecido. Mas a sua consciência não estava tranquila. Estranhamente não se recordava de nada acerca da noite passada e isso era preocupante. Decidiu fechar os olhos e forçar o avivar da memória. Em vão. De repente, aquele corpo adormecido, torpe e dormente, iniciou um movimento na sua direcção. Espreguiçando-se demoradamente, girou em torno de si própria, abriu de forma cadenciada as pálpebras, revelando uns olhos esverdeado-sonolento e um sorriso triste. Nesse momento, num flashback, passaram-lhe perante os olhos todos os segundos, todos os eventos que levaram àquele desfecho. Como um verdadeiro caleidoscópio, visionou e sentiu cada instante. As luzes extasiantes, os cocktails sequenciais, o fumo aspirante dos cigarros ardidos em surdina, a música ecléctica. Os corpos impessoais, serpenteando em uníssono na pista, aguardando o flirt de um ou outro olhar. O bambolear de personalidades ansiando um isco que as pescasse e retirasse do emaranhado da solidão da multidão para uma partilha num local íntimo e reservado a dois. Ele não ambicionava a nada disso. One night stands estavam fora do seu raio de acção e entravam em rota de colisão com os seus mais vincados princípios. Procurava apenas a diversão que a noite lhe proporciona, a distracção da sua vida tenuemente vulgar, o afastamento da lembrança de um amor perdido algures entre a sua aversão ao compromisso e a incapacidade de demonstrar sentimentos. Há muitos anos atrás. A meio da noite, contudo, alheava-se do mundo e resguardava-se sozinho. Sentado ao balcão, bebendo o seu copo. Envolto nos seus pensamentos, ignorando o que o rodeava, apenas observando. Chegava a imaginar os pares prováveis, simulando mentalmente as conversas ridículas, os engates baratos e imaginando em qual Hotel iriam terminar a noite. Ele não. Não se entregaria à fugacidade de relacionamentos carnais e puramente sexuais. O problema de tão vincada opinião foi não contar com o acaso. De entre aquela multidão que criticava solenemente, vislumbrou-a e soube-a diferente. Soube-a igual a si. Melancólica, sorumbática, escandalosamente bonita, ela encontrava-se na ponta oposta do balcão. Sob uma luz avermelhado-néon, a forma como com a ponta do dedo rodeava o topo do copo e se abstraía do cíclico jogo de flirts, chamou-o para os seus olhos esverdeados e esbugalhados. Quase hipnotizado, levantou-se no seu encalço. Chegou perto do seu ouvido e disse: “Acho que nenhum de nós pertence aqui. Vamos?” Estendeu-lhe o braço, curvando-se ligeiramente. Ela sucumbiu instantaneamente ao seu pedido como se já o esperasse há muito. De manhã cedo, ao ver-lhe a alma no olhar, soube-lhe o futuro. Era dele, era com ele. Desta vez não a deixaria escapar por entre os dedos. Desta vez dar-se-ia inteiro.

Trimmmmmmm….. trimmmm…. Trimmmm… “Estou?”, respondeu enquanto aspirava o fumo cinzento do cigarro que segurava na ponta dos dedos. “Sim sim, terminei agora o primeiro capítulo. Mas acho que precisa de uns retoques… “Num tom de voz alterado, apagou nervosamente o cigarro no cinzeiro pousado na sua mesa de trabalho e respondeu: “Porquê? Porque está estupidamente romântico e não foi isso que me propus escrever”.

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A chuva ácida do aglomerado urbano extremamente populado que se ouvia lá fora, pouco lhes importava. A não ser porque fora debaixo dela que se haviam cruzado e decidido juntos abrigar-se dela no quarto barato e deveras imundo do primeiro hotel que encontraram. A decoração, perfeitamente hedionda, deixava ver resquícios de histórias ali passadas. Manchas suspeitas no sofá de canto, pequenos rasgos no revestimento, o papel de parede remendado vezes e vezes sem conta por diferentes desenhos descontinuados, as tonalidades bege amareladas dos cortinados da janela que dava para uma triste parede de betão, o cheiro bafiento do ar saturado e a sombra avermelhada do candeeiro asiático apelando às raízes e orgulhos nacionais. Fecharam a porta atrás de si, encharcados em água que lhes conferia um peso extra nos corpos frios, arrepiados e puramente fartos das monções. Ela, algo tímida, refugiou-se no canto mais escuro do compartimento como que fugindo do seu olhar perscrutador, e retirou peça a peça cada pedaço de tecido que lhe ornamentava o corpo. A simplicidade das suas vestes contrastavam em tudo com o seu cavalheiresco fato, de colete e gravata, que lhe assentava na perfeição e denotava sem margem para dúvidas que havia sido impecavelmente talhado para si. A frieza do seu olhar emprestava ao seu semblante um gélido distanciamento. No entanto, conseguia derreter-lhe a vontade com um simples esgar, com um simples vislumbrar na sua direcção. Havia qualquer coisa no fundo dos seus olhos que a congelavam no tempo, que a fazia esperar pelo seu toque, que a fazia despojar-se da clarividência e entregar-se sem porquês, que a fazia ficar inteiramente à sua mercê. Chamou-a para si e guiou-a suavemente como se comandasse os fios de uma marioneta, ordenando-lhe que se deitasse no sofá. Posicionou-a como lhe aprouve e respirou perto da sua pele como que inspirando o seu cheiro para a sentir sua. Não sabia o que a fazia desprender-se assim, não sabia que efeito exercia sobre ela mas sabia que tinha o poder de fazer dela tudo o que os seus caprichosos trejeitos quisessem. Talvez fosse a forma como idolatrava o seu corpo, a forma como o percorria curioso, testando todas as suas reacções, inspeccionando a melhor forma de lhe coarctar a razão para se entregar a si, de corpo e alma. Talvez fosse o mistério e o silêncio, o silêncio da sua boca que ainda não havia proferido uma só palavra e apenas se havia atrevido a beijar-lhe os lábios semiabertos e ávidos de curiosidade. Talvez fosse o domínio que as suas mãos exerciam sobre o seu corpo. Contorcia-se com um beliscar aqui, estremecia com um deslizar ali, suspirava quando parava, gemia quando recomeçava. Os dedos, manifestamente ardilosos, sabiam de cor as suas zonas erógenas e valendo-se disso, fê-la desesperar, colapsar de vontade de o sentir entregue à paixão do seu corpo, introduzindo-se nela e penetrando-a o mais fundo que conseguisse, o mais longe que alguém pudesse ter-se aventurado nela. Mas ele parecia não estar disposto a abandonar o seu ensejo, continuava hipnotizado, ofertando-lhe a sua admiração, regozijando ao vê-la perdida com o toque dos dedos no seu clitóris vibrante, gozando os sucos premonitórios que dela brotavam, inspirando o aroma cálido e inebriante que dela emanava e se espraiava no seu olfacto turvando-lhe a visão, empurrando-lhe o toque e conspurcando-lhe o paladar. Levantou-se de um impulso só, deixando-a prostrada e ingenuamente crente de que chegara a hora de o sentir em si. Enganou-se. Vestiu o casaco, ajeitou-se ao espelho e quebrando o silêncio, disse na voz mais rouca e cavernosa que alguma vez ouvira: "Deixa o desejo consumir-te e comer-te as entranhas. Saberás quando me encontrar."

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Combinaram todos os detalhes. Ela vestiria em tons de preto: sapato de tacão alto, meia liga, saia curta e apenas um blazer ocultando um corpete de renda bastante decotado. Ele costumava dizer que adorava cumprimentá-la com um beijo e sentir-lhe logo a pele por baixo da saia e ela não o quis desapontar. Contudo, a memória apagou-se-lhe no momento em que entrou naquele quarto. Da mala retirou uma venda e dois lenços de cetim preto. O plano era ele ser o alvo de toda a sua atenção. Despertar-lhe os sentidos ocultando-lhe a visão. Mas, o feitiço virou-se contra o feiticeiro e ele surpreendeu-a. "Não, hoje quero-te dar todo o prazer a ti." Apoderou-se dos lenços e, após ter-lhe tirado a roupa, deitou-a na cama, prendendo-lhe os pulsos à cama, num movimento suave e cuidado, certificando-se que estava seguro o suficiente para não a magoar. De um lado passou para o outro, beijando-a quando se aproximou da sua boca. "Pronta para provares do teu veneno?" Ela assentiu, esboçando um sorriso tímido. Vendou-a. Fez-se noite nos seus olhos arregalados e instintivamente receou o que aí vinha. Conseguia antecipar um sofrimento, um sofrimento delicioso mas doloroso ao mesmo tempo.
Com os seus lábios carnudos, percorreu-lhe o corpo de lés a lés. Começou no pescoço, passando pelos  seios onde não conseguiu evitar dar uma leve trinca e molhar de saliva o mamilo. Continuou, em direcção à barriga, arrepiando-a por o saber tão perto do seu centro nevrálgico de prazer. Mas, quando pensava que era aí que ele se ia demorar, depressa se apercebeu que não. Chegou-se perto da boca, beijou-a ao de leve trincando o lábio inferior e afastou-se deixando-a pendurada, expectante. Segundos mais tarde, sentiu-o aproximar-se e imaginou que outro beijo se seguisse. Entreabriu os lábios, esperando a sua língua mas não foi o que encontrou. Sem medo, lambeu o que lhe era dado a provar e desde logo descobriu ser o seu membro pulsante que se encostava e afastava dos seus lábios e da sua língua deixando-a desesperada e ávida de o sentir todo. Não o fez e afastou-se novamente. Aproximou-se-lhe do ouvido sussurando um "estás a gostar?", trincando o lóbulo da orelha e chupando-o. Depois, pegou-lhe na mão e encaminhou-a para o que veio descobrir ser o seu membro. Fê-la tocá-lo por alguns instantes enquanto a sentia também, pressionando-lhe suavemente o clitóris. Voltou a parar. Debruçou-se sobre ela, lambeu-lhe os mamilos alternadamente, apertou-os com força, fazendo com que se contorcesse de dor e prazer simultâneo. Por aquela altura, já estava desesperada. Queria senti-lo e atingir um orgasmo rapidamente. Mas tal não lhe foi permitido. Em vez disso, ele dedicou-se a dar-lhe prazer com a língua ao mesmo tempo que a estimulava com um dedo. O facto de não conseguir ver nem saber onde ele ia lamber, com que intensidade ou o momento em que ia introduzir o dedo, deixou-a completamente alterada e cada vez mais louca de tesão. Atingiu um e outro orgasmo de forma concomitante em explosões de prazer absolutamente surreais. Na sua cabeça passavam imagens, as imagens que imaginava serem as que se estavam a passar mas sem nunca saber verdadeiramente até as sentir na pele. Ele, roçou-se nela, mostrando-lhe quão grande já estava, quão pronto se encontrava para ela. Resistiu estoicamente, proporcionando-lhe uma espiral de prazer. Até que, após ter voltado a dar-se a provar na boca, não aguentou mais. Deixou-lhe a venda mas libertando-lhe os pulsos, ordenou-lhe que se colocasse de quatro e entrou nela. Revoltado, possuído, desesperado. Bombeou-a como nunca, agarrando-a pelo cabelo, puxando com força e curvando-lhe a coluna encostando-a a si. Ela pulsava de prazer ao mesmo tempo que colocava um dedo no clitóris e massajava rapidamente. O seu membro húmido do seu líquido entrava e saía sem dificuldade. Gemeu alto e deu-lhe a entender que já podia deixar de se conter. Nesse momento, ele quis mostrar-lhe o que tinha causado nele. Retirou-lhe apressadamente a venda e saboreou o seu prazer. Sorriu, lambendo os cantos da boca, provando da sua essência. Guarda até hoje os momentos de prazer sôfrego que lhe foram proporcionados. Um prolongar do prazer e do gozo, um adiamento absolutamente delicioso.