Smoking Hot (15)

E elas entregavam-se ao emaranhado que os seus corpos desenhavam nos lençóis que serviam de abrigo ao prazer que durante tanto tempo almejaram. Sonegaram os preconceitos impostos por uma sociedade hipócrita que hodiernamente olha de soslaio aqueles que em prol de uma vivência plena se abstêm de seguir os seus valores e deixaram-se levar e perder no concretizar de um idealismo que sabiam querer. Sucumbiram perante a beleza que o corpo que tinham ao seu dispor lhes oferecia e tactearam-no, provando-o, abusando-o, violando cada resquício do receio que horas antes lhes aflorava o pensamento. Entregaram-se desenfreadamente ao que uma e outra oferecia e o suor que lhes escorria da pele, significava nelas o exteriorizar do prazer que finalmente lhes tinha sido permitido.

Smoking Hot (5)

O rosto calmo e sereno denota o aproveitar de um momento puramente intimista. O corpo contorce-se de prazer. Aliam-se dois vícios numa só identidade.

Smoking Hot (12)

Aspiro um bafo firme e longo no cigarro que me faz companhia no quarto escuro e constrangedor que deixaste abandonado só para mim. Expiro o fumo serpenteante e fugidio e retenho a sensação de saciedade por breves instantes. É curta e perecível. Esvai-se tão depressa quanto a certeza da tua presença. Presença que só se mantém por estar entranhada em mim de uma forma intensa e quase palpável. O aroma deixado no ar preenche-se do cheiro dos nossos corpos envoltos em luxúria, dos resquícios das secreções, do perfume dos nossos beijos, do suor da entrega que achamos absolutamente perfeita. Nas paredes e espelhos vejo-nos agora em slow motion, propositadamente, prolongando cada gesto, cada investida, cada toque. Estico os segundos em frames lentos e alongados para coincidir com o desejo que ainda nutro por ti e que o fumo agora tolda ao som da saudade.

Smoking Hot (13)

A beleza de dois corpos juntos, está na naturalidade com que se entregam um ao outro. Não há lugar a ensaios nem a tentativas. A beleza de dois corpos juntos não se vê. Sente-se. No calor que, unidos um com o outro, o seu abraço emana. Na mistura de dois cheiros distintos mas que de alguma forma se completam e instigam mutuamente em direcção a um querer desenfreado. Nos sorrisos desenhados em rostos desalinhados, sujos dos resquícios um do outro mas límpidos na certeza de um unânime querer. Nos olhos impregnados de desejo numa paixão arrebatadora que lhes consome a alma dia após dia mas que lhes preenche o coração de um doce mas indefinido sabor.

Smoking Hot (4)

Um cigarro pensativo. O fumo encerra todo um almanaque de pensamentos, desejos, memórias. O olhar, pregado no vazio, perdido na imensidão da fértil imaginação. Ela anseia. Urge-lhe a certeza do querer. Ela decide que quer.

Smoking Hot (16)


Paro para pensar e penso que nunca antes pensei que me soubesse tão bem. Prostrada, encosto os ombros na almofada e sinto ainda o aroma da tua pele que se entranhou nela, que se entranhou em mim e me deixou como que hipnotizada, perdida no âmago das memórias dos momentos que até há instantes eram reais. Saíste de mim mas deixaste para trás o imenso calor que me enche o peito num bafo doce e almiscarado, num sussurrar acutilante que me invade os sentidos e me faz desejar que o tempo, esse eterno ditador, te-me conceda novamente.

Smoking Hot (11)

Reconheço instantaneamente os sintomas da tua ausência. O olhar pregado no vazio, os pensamentos deambulantes, o corpo torpe e dormente. Inundam-me os desejos de te-me voltar a dar e o tempo que teima em não arrepiar caminho na tua direcção. Permaneço aqui. À espera da hora em que nos voltaremos a saciar. À espera da hora em que o prazer que me dás se voltará a materializar e os nossos corpos se fundirão numa simbiose única.

Smoking Hot (19)

Há corpos que nos seduzem pela forma como se impõem ao olhar, como se impõem à vontade, como se impõem ao desejo num cárcere apenas comparável ao de uma inevitabilidade. Ao vê-lo, excitado, rijo, grande e inequivocamente pronto, os olhos fixaram-no e traçaram mentalmente um guião que desejava protagonizar de imediato. Saltar para cima da cama, pegar-lhe para tão só lhe tirar as medidas, para lhe sentir o tamanho e a vontade, para lhe imaginar a destreza, para lhe comandar o destino. Dobrar-se, ajeitando-se, para tão só lhe provar o sabor, para o tomar na boca e o acariciar lentamente, deslizando a língua em circunferências de sentidos exaltados, em engolires de satisfação, em manejares de luxuriante fulgor. Sentar-se, nele, guiando-o para dentro de si e ritmando as entradas e saídas ao jeito da sua vontade, ao compasso do orgasmo iminente, sentindo o fuso girar dentro de si, em rotações surreais de prazer. Há corpos que nos hipnotizam no segundo que se nos entregam, que se nos apresentam diante dos olhos, as portas da alma, nos invadem a mente num rompante, despertando o desejo e a volúpia, a paixão e a vontade, a tesão e o ardor.

Smoking Hot (17)

De cada vez que lhe sentia a presença, o seu corpo entrava em histeria contida. Aguentava estoicamente, controlando os impulsos frenéticos que lhe vinham do fundo do ser e a impeliam directamente para os seus braços. A vontade que lhe tinha era inesgotável, absurdamente inesgotável. Ainda estava para perceber como era possível a falta de domínio que tinha sobre a sua libido sempre que os seus olhos o fitavam, sempre que as suas mãos se atreviam a tocar-lhe. Um mínimo toque e a sua mente rodopiava em torno das imagens que queria concretizar, em torno dos momentos que queria protagonizar. Sentia-se derreter depois de cada olhar, sentia-se queimar por dentro depois de cada deslizar das mãos pelas suas curvas, sentia-se incendiar depois de cada palavra suspirada ao seu ouvido. Sentia as chamas que consumiam o que ainda restava da sua sanidade e evolava-se na loucura de o querer. E queria-o tanto. Queria-o imortalizado em si, queria-o perdido nos recantos do seu corpo, gozando e aproveitando cada centelha de vida que ela tinha para lhe oferecer. Queria-o em fúria, impotente perante o seu sexo, incapaz de se controlar em si mesmo, apalpando, fazendo-a sua pertença, erradicando e transferindo para o nunca o apagar do cigarro que consumiam em bafos de paixão.

Smoking Hot (7)

In the dark of the night I could hear you calling my name.
With the hardest of the hearts, I still feel full of pain.
So I drink and I smoke and I ask you if you're ever around.

(Kings of Leon)