State of the Mind (56)


"Tu me manques. Terriblement. Il y a que des temps morts et lieux où je ne veux pas être." 

Aguentamos estoicamente a pressão dos dias que contamos mentalmente na expectativa de se ter passado mais um que a conta. Que nos tenhamos enganado a contar ou, a leveza com que flutuamos sobre eles, nos tenha feito dar um pulo maior no calendário. Aguentamos estoicamente a falta que um corpo nos faz, um corpo que nos moldou à sua medida e a cujas exigências e necessidades sucumbimos voluntariamente sem querer. Aguentamos estoicamente sem aquela voz que nos sussurra ao ouvido ora as palavras doces que nos derretem o coração mal habituado, ora as palavras permeadas pela loucura do sexo e da paixão, da carne entregue para ser  usada sem refreio. Aguentamos estoicamente a falta da língua que nos acaricia o corpo, preparando-o para o desfecho que ansiamos. A língua que nos toca tão perfeita e nos faz estremecer de um prazer que julgámos não existir. Aguentamos estoicamente a falta do toque que consideramos mágico, indagando sempre se é natural conseguir manobrar-nos assim, em arrepios tão reais como se aquelas mãos se consubstanciassem ali, à distância dos dias, à distância do trilho de desejo que construímos em pegadas pesadas, em passos lentos e sofridos, em olhos que se fecham à noite exigindo que aquele dia seja o dia.

State of the Mind (60)

Tocas-me a alma sempre que entras em mim. Sinto, em cada investida, em cada entra e sai, um bocadinho mais de ti a ficar em mim. Transferes-te para o meu interior em cada beijo que depositas na boca que invariavelmente se encontra ávida de ti. Conquistas paulatinamente espaços em mim, ocupando-me, preenchendo-me, içando a bandeira e reclamando-me tua. E eu não ofereço resistência, não consigo. Deixo-me sucumbir, baixo a guarda e deixo-te entrar, deixo-te ficar. Porque é de ti que vivo, é em ti que me sacio, é em ti que repouso, é em ti que me canso, é em ti que amo, é em ti que me apaixono, é em ti que encontro o prazer que quero sempre.

State of the Mind (44)

Suponho que é assim que se sente. Acho que já não me recordava de como se sentia. Tão real e vívido, tão presente. Suponho que é assim que se sente quem sabendo o que sente não pode sentir. 


"Anda, abraça-me, beija-me
Encosta o teu peito ao meu
Esquece o que vai na rua
Vem ser minha eu serei teu
Que falem não nos interessa
O mundo não nos importa
O nosso mundo começa
Dentro da nossa porta

Só nós dois é compreendemos
O calor dos nossos beijos
Só nós dois é que sofremos
As torturas e os desejos
Vamos viver o presente
Tal qual a vida nos dá
O que reserva o futuro
Só deus sabe o que será"

Tiago Bettencourt, Só nós dois.

State of the Mind (39)

E a primeira coisa a abandonar-me o corpo é uma lágrima. Cintilante e cheia de pressa de fugir do cativeiro onde permaneceu fechada tanto tempo, do cativeiro a que a submeti dos gritos que calei. E o prazer agora oferecido, o prazer partilhado, finalmente expurgou da alma os restos entranhados da tristeza que lhe consumia cada fibra de um coração cansado, pesado, ansioso e expectante. Substituiu-a pela certeza de ainda serem possível apesar das feridas abertas que pretende selar com o suor dos seus corpos, com o travo doce dos beijos que partilham de olhos fechados e perdidos na sofreguidão de se voltarem a ter um no outro.

State of the Mind (54)

Palmilhava-lhe a pele com a mestria de um navegador sem bússola. Conhecia-lhe os trilhos do corpo como ninguém. Fazia-o de olhos fechados apenas inebriado pela sensação do toque das suas mãos em cada recanto intumescido, em cada poro arrepiado, em cada milímetro de calor. E, ainda assim, de cada vez que a prendia entre as suas mãos, parecia que era a primeira vez. Encontrava-lhe sempre um pormenor novo, um sinal escondido, uma curva mais delineada, um sorriso diferente, um olhar mais perdido que o habitual. E ela, subjugada, deixava-se descobrir, deixava-se navegar aproveitando cada tontura, cada balancear, cada novo porto onde lançavam âncora. Deixava-se prender à sua mercê, guiada apenas pelas pegadas que ele lhe deixava inscritas na pele como leves socalcos na areia molhada. Permissiva, apertada, violentada, movimentada pelo seu querer,  deixava-se preencher toda. Deixava-se usar muito. Deixava-se lamber sem fim. Deixava-se amar plena.

State of the Mind (47)

Ela sabe querê-lo e sabe que o quer. Desassossega-lhe o corpo, acordando-o.  Envergando um sorriso próprio de quem tem uma missão, deposita-lhe suspiros ao ouvido enquanto lhe tacteia cada centímetro da pele, enquanto lhe percorre o peito com carícias da boca sôfrega e audaz em beijos demorados, em lamberes ávidos e mordiscos suavizados por lábios quentes e húmidos. Sente-lhe o desejo subir de tom e regozija ao saber que os seus intentos alcançaram o sucesso almejado. Encaixa-o, usa-o, veste-o e toma-o como seu. Faz-se e desfaz-se nele, rasga-se e recompõe-se, estilhaça-se em mil pedaços para sempre, sempre se voltar a colar quando nos seus olhos vê reflectido o querer que ele também sabe.

State of the Mind (68)

É difícil distanciar-me do prazer para descrever o prazer. Mas tento sempre, acrescentando uma ou outra metáfora, comparando manifestações corporais de desejo com singelos cenários, lugares comuns, clichés muitas vezes usados até à exaustão. É difícil não sentir no bater entusiasmado das teclas, o perfume dos resquícios de momentos que me invadem e me destroem por dentro, dilacerando-me o peito e fazendo o coração pujante e latejante saltar para fora, libertando-se e gritando ao mundo que a paixão é o que me consome, que o desejo é o que me move, que a luxúria é o que me preenche. Sinto-o no momento em que o meu corpo se entrega à explosão do querer, às palpitações nervosas de uma entrega, ao dilúvio de fluídos que entrego e são depositados em mim numa prova absoluta de que o que se sentiu foi real. É difícil distanciar-me do desassossego que sinto, pele com pele, olhos nos olhos, carne com carne e simplesmente adormecer imbuída da satisfação do sexo, do comungar de vontades, do aproveitar do mais maravilhoso momento de partilha de que alguma vez seremos capazes. É difícil não sentir, à distância do tempo, a lembrança a ecoar-me no pensamento provocando um desalinho, um estremecer delicioso de memórias que se reflectem inesperadamente no corpo para tão só acordar a vontade e fazer-me querer mais, já agora, já aqui.

State of the Mind (16)

No rescaldo de um acontecer, escorrem resquícios de mim em ti e de ti em mim. Lavei-te de mim mas levo-te comigo no cheiro do teu corpo, no beijo dos teus lábios, no toque das tuas mãos, no pulsar das veias a percorrer-me intensamente.

State of the Mind (8)

"It seems I held your hand
'Cause I thought I could understand
The way I let myself along
It trapped my body and my soul as one..."

Hands on Approach

State of the Mind (74)


A doença era corrosiva, degenerativa, conspurcadora e enfezada. Padecia daquele mal há mais tempo que o que sabia, preferiu ignorar os sintomas, deixou-os avançar e corrompê-la até serem impossíveis de negar. Saltavam à vista, a olho nu até, qualquer um que se desse ao trabalho de a fitar, de lhe olhar no fundo dos olhos, reparava que o que a habitava era uma sanguessuga difícil de escorraçar.  A doença, como lhe chamavam, não tinha cura. Alimentava-se dela e ela dela, eram ambas insaciáveis, eram indissociáveis uma da outra. Era um vício, um querer desenfreado, um respirar frenético, um inspirar para se saciar, um desejo tão arrebatador que lhe brutalizava a mente, lhe instigava a vontade, lhe arrancava a roupa do corpo, lhe rasgava a pele para se sentir cheia, numa viagem psicadélica, num ascender eclético aos píncaros do prazer. Encontrava o auge tantas vezes quantas as que se deixava profanar. Fechava os olhos e deixava-se levar. Chorava e fodia, chorava enquanto fodia, chorava depois de foder. Deliciava-se com o sabor das lágrimas quando lhe pousavam na face e lhe escorriam rosto abaixo e as lambia, ávida por lhe tomar o gosto e se certificar de que não estava curada, de que o placebo não surtira efeito, de que o corpo ainda lhe pedia mais, de que ainda havia mais sabores para provar, corpos para experimentar, prazeres para sentir, desejos para saciar. 

State of the Mind #67

Doía-lhe o corpo. Sentia-se preenchida de um vazio que apenas se colmatava quando se achava colada à sua pele, sentia o corpo implorando pelo toque das suas mãos, pelo arrepiar do seu abraço, pela ternura do seu olhar, pelo amanhecer do seu prazer em si. Doía-lhe o corpo. Uma dor extenuante, um sufoco apertado, manietada pela vontade urgente que tinha de o sentir, pela vontade urgente que tinha de o provar. Rogava que se consubstanciasse ali na frente dela só pelo puro pensar, só pelo puro imaginar e que se pudesse saciar ali mesmo. Rogava encontrá-lo pronto a usar, pronto a dar-se-lhe todo e a fazer dela o seu objecto de prazer, o seu brinquedo favorito. Doía-lhe o corpo. E por mais que se tentasse abstrair, o seu cheiro circundava-a como que recordando o vício que lhe tinha, como que fazendo uma afirmação solene: Só em mim te virás, só em mim encontrarás o prazer, só em mim caberás. Porque te moldei para mim, porque te fiz minha, porque te quis assim, entregue ao vício do meu corpo e do que dele extraio para te oferecer.

State of the Mind (73)

Tinha o corpo em euforia. Latejavam-lhe as veias pulsantes, percorrendo-lhe o interior como ácido que desfaz tudo à sua passagem. Culminava no coração que bombeava sôfrego e ávido, descompassado, acelerado, num ritmo que descrevia uma melodia ecléctica e irreconhecível. Tremiam-lhe as mãos, secava-se-lhe a boca, calava-se-lhe a voz que gritava no silêncio da sua mente. Embrenhou-se nele, pegou-o e reconheceu instantaneamente a forma e textura que se acomodavam nela e a preenchiam de plenitude e de prazer. Ansiou por lhe voltar a saborear o desejo, por o fazer seu, por o manobrar, por o envolver suavemente na boca que implorava lhe matasse a sede e a luxúria. Num instante, sentiu-se finalmente em casa. Provou-o e inebriou-se dele, do sabor que tinha gravado na memória, das pequenas gotas de prazer que se lhe alojavam nas papilas e lhe matavam o vício de tanto o querer. Chupou-o enraivecida, sugando-lhe a energia, rogando-lhe a entrega, almejando uma explosão e a reminiscência do que sempre foram um no outro. Lambeu-lhe as feridas, beijou-lhe as cicatrizes, amou-lhe a tristeza, sorriu-lhe a paixão. Lacrimejou, feliz.

State of the Mind (36)

Rastejo pelos dias na ânsia de chegar até nós. Na ânsia de reatar onde parámos e de, assim que os nossos lábios se tocarem novamente, sentir o corpo inundar-se do materializar de todos os momentos que partilhámos até ali. De todas as noites, tardes e manhãs em que nos fundimos nos braços um do outro e nos demos inteiros. De todas as sensações que o teu corpo provoca no meu corpo. De todos os arrepios, sorrisos, gemidos, palavras, toques e gestos. De todas as memórias e de todos os planos que fizemos. Rastejo pelos dias na ânsia de te voltar a sentir em mim, de te pegar entre as mãos e tomar-te na minha boca, de sentir o teu orgasmo que invariavelmente é o meu também, de te-me oferecer toda e explodir do prazer que só tu tão bem me sabes dar.

State of the Mind (7)

Bebe-me. Sucumbe ao inebriar do que te ofereço. 
Bebe dos meus poros e dá-me a provar. 
Embriaga-te de mim.

State of the Mind (2)

It's just an illusion, a trick, a trick of the light
what you now see is really out of sight
It's dark, it's evil, possessive and kind
Something that you give me keeps me alive

Both ends burning, burning so bright tonight

And my world keeps turning, turning inside out

And I can't break the chain

I've gotta break the chain
I'm trying to break the chain

(Gene Loves Jezebel)

State of the Mind (70)

Desconhecia o sabor da derrota. Todas as lutas em que se embrenhava, batalhava até ao fim, até ao momento em que a névoa de prazer lhe toldava o discernimento, até ao segundo em que num orgasmo lançava nas malhas intrincadas do vazio a sensação de ser preenchida e abusada sem pudor. Via-se de fora, entregue à mais rocambulesca volúpia, perdida no mais burlesco cenário e nunca, jamais se envergonhava do que via. Aliás, a identidade que assumia quando aproveitava os mais inóspitos prazeres, excitava-a, deixava-a orgulhosa do que havia feito de si mesma. Sabia que o fogo que tinha dentro era difícil de apagar e a senhora casta, de feições puras e comportamentos impecáveis que mostrava, era apenas o veículo que continha aquela que agora observava em habilidosas artes de viver o desejo, em maratonas de sexo em que ousava entrar cansando o corpo e alimentando a alma.

State of the Mind (38)

Humbert: I missed you. I missed you a lot.
Lolita: Well I haven't missed you. In fact, I've been revoltingly unfaithful to you. But it doesn't matter, because you don't care about me anymore anyway.
Humbert: What makes you think I don't care about you?
Lolita: Well you haven't kissed me yet, have you? 

In "Lolita" de Vladimir Nabokov.

State of the Mind (72)

Trago a carne consumida, do pedir do corpo possuído. Trago o desejo impregnado nos poros, na lascívia dela que me roga para ser tocada, mexida, penetrada. Trago o corpo solitário, aceso da vontade de orgasmos inesgotáveis. Trago a luxúria fundida na ponta dos dedos que exploram a entrada desenfreada. Trago os seios arrepiados, do vislumbre do prazer que preciso receber. Trago-a intumescida, molhada, palpitante da certeza de um segundo de adrenalina a invadir-me a mente. Trago o suor de uma entrega, a tocar-me a ponta da língua. Trago o aroma a mim, ao meu sabor, agarrado ao meu tocar. Trago prazer queimado a ferro em brasa na pele, na dor lancinante que o instinto me instiga a saciar. Trago-me louca, neste vício de me ter.

State of the Mind (25)

O espelho mostra apenas o ser. Parado ou em movimento, reflecte apenas o corpo ou corpos esvaziados de toda a emoção. Reflecte o consubstanciar visível e palpável do que vai dentro da alma. O mesmo se passa com uma fotografia. O obturador capta apenas a manifestação exterior dos sentimentos que no nosso íntimo se intercalam. Mas o espelho, límpido e estanque,  funciona como auxiliar de memória. É nele que, reflectidos nos vejo. E reflectidos nos recordo. E reflectidos nos uso em meu proveito. Assim.

State of the Mind (23)

Bind Me

"Bind my ankles with your white cotton rope so I cannot walk.
Bind my wrists so I cannot push you away.
Place me on the bed and wrap your rope tighter around my skin so it grips my flesh.
Now I know that struggle is useless, that I must lie here ...
I submit to your mouth and tongue and teeth,
your hands and words and whims.
I exist only as your object.
Exposed."
(Poem found on the internet by "Johnnybegood4u")