Da preguiça (The Sin Saga)


Permaneciam na cama até que o tempo os viesse chamar, mal educado, inconveniente, inoportuno, interrompia-lhes a vida. Detestavam-no. Permaneciam na cama, dormentes, torpes, anestesiados pelo calor dos corpos que não logravam separar, hipnotizados pelas labaredas que lhes assolavam o olhar. Permaneciam na cama, indiferentes ao que o mundo lhes reservava lá fora, interessados apenas no timbre da voz sussurrada ao ouvido, no aroma da pele que se-lhe encostava, no toque das mãos exacerbadas de desejo, nas carícias dos dedos quentes e bafejados pela luxúria da descoberta, no beijo incendiário que lhes queimava os lábios e o corpo como uma tocha que arde paulatinamente, no membro exaltado pela proximidade do prazer, na lentidão dos movimentos apenas esforçados em sentir e fazer sentir o prazer de uma entrega. Permaneciam na cama até que fossem obrigados a abandonar o leito que coleccionava as suas indulgências, que abarcava as suas fantasias, que fazia as delícias da paixão, que contrapunha a inércia da preguiça à languidez de fazer amor ainda entorpecidos pelo acordar do corpo para as primeiras horas da manhã. Permaneciam na cama, soberanamente preenchidos um do outro, predestinados a almejar morrer ali, fundidos na volúpia de orgasmos demorados e sonhando ignorar o chamamento do tempo e das obrigações.

Gula (The Sin Saga)

Engolia-o sempre que podia numa vontade desmesurada, num querer desenfreado, numa gula exacerbada pelo desejo de o sentir estremecer face a cada movimento que a sua ávida boca desenhava. Insaciável, tomava-o nas mãos e manobrava-o intensamente, lambendo-o, chupando-o, agitando-o. Sabia que o prazer não se acabava mas inconscientemente era movida pelo desejo de querer sempre mais, de o esgotar, de o fazer implorar que abrandasse, dando-lhe tempo de respirar e ganhar fôlego para aguentar uma nova investida. Deliciava-se no simples gesto de o fazer brilhar da saliva que as papilas gustativas soltavam face ao sublime sabor que ele lhe proporcionava. Degustava o prazer que sabia lhe retribuir na ponta da língua, no fundo da garganta que orgulhosa o abarcava todo e o largava suavemente massajando e acariciando cada veia, cada textura, cada curva, cada tornear do membro que acicatava a sua vontade. Sabia-se pecadora, sabia-se capitalmente viciada, sabia-se inexoravelmente culpada. Confessava sem demonstrar o mais ténue resquício de arrependimento. Assumia sem almejar à absolvição. Preferia sempre, sem pensar duas vezes, o prazer terreno que o eterno marasmo.

Vaidade (The Sin Saga)

"O espelho é para todos o grande dialogante"

Desejava atrair a admiração e olhar promíscuo daqueles com quem ela se cruzava, causando-lhe inveja, um puro ódio luxuriante, despertando nos corpos circundantes a vontade de lhe ser igual, de lhe ter o corpo e a beleza, de lhe sentir o prazer e o desejo. Regozijava, narcisisticamente, por se sentir admirada, desejada, por alimentar a volúpia ardente nos olhos de quem a cobiçava. Orgulhava-se de cativar e fazer desesperar os corpos que ansiavam o que ela tinha para oferecer, assegurando altiva, o rol de pretendentes ao seu valioso tempo, a um lugar a seu lado, a um instante do seu prazer, a um pedaço da sua cama, a um deslindar do seu íntimo, a um atravessar da sua capa, a um estilhaçar do espelho onde se admirava. Via-se reflectida, ensaiava poses, vislumbrava cenários na sua imaginação. O espelho mostrava-lhe o que corrigir, o seu melhor perfil, o seu melhor ângulo, a sua melhor expressão. Posicionava-se, vezes e vezes sem conta, ajeitava-se, sorria-se. Gostava do que via e sentia-se orgulhosa de saber que o seu reflexo igualava as pistas que a sua mente, o seu espírito lhe davam. Falava com o espelho, uma superfície inerte que apenas ganhava vida com a sua sombra, com os seus movimentos, que não lhe falava de volta mas que lhe dava a resposta a todas suas perguntas. Era nele que via quem gostava de ser, era nele que imaginava o seu corpo entregue a outro corpo, que os via em comunhão, que ensaiava as próximas actuações. E assim, vaidosa e orgulhosa, soberba e caprichosa, construía memórias que consubstanciavam desejos, que explanavam vontades e capturavam sensações.
"Quando se não tem já vaidade no corpo, está-se no fim"

Quotes by Vergílio Ferreira