True Colours #25


Hoje, só por ser hoje, por nenhum motivo específico, por nenhuma razão especial, não tem de existir, mas pode existir. Hoje, só por ser hoje, só porque me apetece, só porque quero. Hoje, só por ser hoje, porque me encontro onde gostaria de me achar, porque sorrio de cara levantada, de coração feliz, de leveza no olhar. Hoje, só por ser hoje, por todos os motivos do mundo, por nenhum em particular. Hoje, só por ser hoje, porque mereço, porque cheguei e quis cá chegar. Hoje, só por ser hoje, porque sou a partilhar, porque me dou e recebo em troca, tanto. Hoje, só por ser hoje, porque sim, porque não?

True Colours #11

Vejo-te à lupa. Procuro-te em cada pormenor, percebo-te em cada traço de saliva que deixo a escorrer por ti, sei-te em cada investida da língua que te percorre e dos lábios que te envolvem. Palmilho-te com vontade, com dedicação, com prazer. Porque o prazer que te dou devolves-mo em dobro. No arquejar das costas, no ofegar da tua respiração, nos gemidos que tentas calar, nas tuas mãos inquietas que perdem a noção da sua funcionalidade e irrequietas me pegam no cabelo, me arrepiam os seios e os tornam rijos, erectos e sensíveis. Vejo-te à lupa. E de cada vez que o faço, descubro novas sensações, novos detalhes, novas formas. Formas que sei, quero, venham brindar o meu corpo na mais premente união.

True Colours #2

E é na ponta da minha língua, no fundo da minha boca que te sinto. Pego em ti, ávido de mim. Aperto-te entre as mãos, delicio-me em ti. É no contacto de duas texturas que se reduz o atrito, que comungam duas sensações. A minha e a tua.

True Colours #31

Agora sobravam apenas os resquícios do que haviam sido. Os joelhos, doridos, macerados, esfolados, recordavam-na da violência e da urgência, da necessidade de sentir o corpo vivo, de o sentir respirar e palpitar, de o sentir negar-se a morrer, de o sentir preenchido e inundado pelo arrepio do prazer. Acreditou que cada estocada era mais um prego que selava o corpo dele no dela, que cada investida era um centímetro mais próximo da perfeição, que cada entrada era mais um gemido tendente à fusão e ao orgasmo que diluiria o sangue derramado em prol da paixão e da entrega. Colocou-se de forma estratégica na posição certa para o receber. Havia esperado o seu culminar, como alimento para se saciar, como imagem definitiva do prazer que sempre se sabiam dar, como prova do querer, como símbolo inquestionável do início do fim. Recebeu-o deliciada, orgulhosa, deixando-o escorrer por si, sentindo-o quente, espraiar-se-lhe pelo corpo e pela mente, pela carne e pelo espírito.

True Colours #8

You put a spell on me without asking me,
You so impolitely walked into my dreams.

If I can't have you, I can pretend I do,
Because no one makes me feel the way you do.
Whenever you touch me, I sink into my knees,
Oh won't you please, come and visit me...

(Devil Doll)

True Colours #28

O pincel, ligeiramente embebido em aguarrás, perscrutou indeciso as cores da palete de madeira, suja e gasta e usada, que segurava habilmente na mão esquerda, moldada à sua forma há mais anos que os que a sua imaginação se atrevia a pintar. Era comum ver-se hipnotizado em frente à tela vazia, branca, estrategicamente colocada em cima do cavalete, à altura certa do seu braço assertivo. Os borrões de tinta, cautelosamente dispostos por ordem de maior uso, salpicavam alegremente a sua vista. Fechou os olhos, procurando encontrar a veia, o fio condutor de uma ideia para transformar em arte. Considerava-se um artista sem musa, um inventor de musas ao caiar do momento, todas eram tão belas e capazes de o inspirar que por vezes o difícil era escolher a melhor perfeição para pintar. Mas, naquela manhã de tonalidades escuras, nuvens negras e sarrabiscos de breu, a imagem de uma só, preencheu-lhe o pensamento. Havia-a conhecido acidentalmente, havia-a conhecido propositadamente quando ela lhe abriu as portas do seu mundo. E, inadvertidamente, o pincel ganhou vida própria e começou a desenhar o seu retrato em pinceladas tão vigorosas quanto o tinha sido o seu amar. Lábios grandes, que adorava afastar para beijar, curvas acentuadas que deliciavam o seu tocar, proeminências intumescidas pela sede de uma boca perfeita, o aroma doce-almiscarado que desenhava em nuvens dissipadas pelo querer, o ponto de entrada de prazeres e desejos, cada vez mais aberto pelo seu preencher, o rasgar das suas entranhas pelas palavras ditas a quente e devolvidas em beijos ácidos na pele. Sentiu, em cada pincelada, uma estocada, sentiu em cada misturar de cores, o misturar de sabores, sentiu em cada esborratar, um lamber, sentiu em cada borrão deixado, a textura do seu prazer, sentiu em cada escorrer de tinta, o seu escorrer, sentiu em cada toque na tela, um espasmo tingido de paixão, sentiu no retoque final, o momento de um desesperado culminar. Fê-la perfeita, tão perfeita no retrato como no rosto de orgasmo proporcionado. Teve-a toda, numa entrega tão grande que a aprisionou na tela para nunca mais a deixar escapar de si.

True Colours #17

Quero o que é teu. Quero possuir-te em mim, saber-te meu, usufruir-te.
Quero o que é teu e fazê-lo meu, sempre. Quero sentir que a mim obedece e que os comandos que a ligeireza do meu corpo dita, são ordens que não ousas ignorar. Quero o que é teu na certeza de que desejas o que é meu e que só em mim te sacias. Quero o que é teu, sem hora marcada, à hora que o ímpeto surja e no lugar que a vontade me corroa. Quero o que é teu, pegar-te e fazer-te desaparecer em mim, amar-te sem limite. Apenas o limite do prazer que queremos sem limite.

True Colours #27

O rubor aromatizado da cor do rubi, brilhante, fresco e doce, impregnava-lhe as faces. Corou com a desfaçatez de uma menina envergonhada mas plenamente ciente do que se preparava para fazer. O rosto denunciava a experiência de uma vida, algumas rugas vincavam-lhe já o sorriso e a tez já fora mais resplandecente. Contudo, a expressão era permeada pela travessura, pela maldade inocente de quem tem prazer em brincar, de quem manipula, de quem manieta, de quem subjuga à sua vontade. Regozijava porque sabia que tinha o poder nas suas mãos, na sua língua. O poder de controlar a libido, de dar prazer tão depressa como o retirar. Sabia-se mestra mas gostava de se mostrar aprendiz, tecendo em seu redor uma teia apertada de conquistas, de submissões, de domínio. Era assim, lambendo e chupando que se achava no auge das suas capacidades, que se mantinha no controlo. Pegava no fruto mole, raquítico e inútil e devolvia-lhe a vida em suaves deslizares da língua sabiamente ensinada a tocar nos locais certos, a lamber a textura rugosa para a transformar num vigoroso objecto de prazer. Brincava, torneava, engolia os sucos que escorriam em ténues fios de frescura, em agridoces sucedâneos saciantes da sede que sempre tinha e lhe secavam a garganta na expectativa. Manobrava descompassadamente, impunha ritmos alternados e, de vez em quando, sucumbia à gula e trincava ao de leve como que querendo provar sem magoar a fruta, sem desfazer o encanto, sem deixar fugir a inocência que se enleava na água que lhe crescia na boca. Retirava prazer de engolir sem deglutir, de prolongar sem estragar, de gemer sem ceder, de almejar aos degustares que se seguiriam. Essa sim, era a cereja no topo do bolo.

True Colours #14


Transporto-me na senda das imagens que guardo de nós. O nó que sinto na barriga impõe-se gélido e hirto chegando a provocar dor física tal a sua força. Tento desfazê-lo, procurando no âmago das minhas forças uma réstia de energia que me permita fechar os olhos e acordar junto a ti. É em vão, sei-o bem. Aquele nó doentio permanece subrepticiamente agonizando-me as entranhas, queimando-me cada molécula do ser e amachucando em despojos negros os pedaços de mim que um dia te entreguei para guardares contigo.
Transporto-me na senda das imagens que guardo de nós. Vejo-me, como invariavelmente me vejo, perdida nos teus braços, entregue ao prazer de te-me dar toda, de te sentir rasgar-me o corpo e oferecendo-me o teu em toda a sua imponência. Bebo-te a essência, não deixando gota perdida. Lambo-te a pele, não deixando um milímetro por provar. Abraço-te o desejo, não deixando uma vontade por satisfazer.

True Colours #12

 "Let's call it the love making of the mouth"

Já não sei se és tu quem dá ou se sou eu que ofereço. A verdade é que a comunhão dos nossos corpos é de tal forma intensa e natural que eles se movem ao som do desejo numa dança genuína, que nos está no sangue e nos abraça num véu de prazer e loucura. E é nessa dança que o meu corpo encontra o teu, que o meu acaba onde começa o teu e que pele com pele nos fazemos um só.


True Colours #22

Do mundo dos sonhos, sobram-nos ao acordar, entorpecidos pelo frio da manhã, resquícios de um imaginário, de viagens sonâmbulas, de planetas longínquos de ficção. Do mundo dos sonhos,  guardamos ideais de loucura que sonhámos a dormir e que desejamos sonhar acordados. Ao abrir os olhos, ténue e vagarosamente, vemos flashbacks, imagens que já nos fogem da memória, esfumadas e serpenteantes. Aquele lenço vermelho, que lhe flutuava agora em frente aos olhos, solto, suave e esvoaçante, havia sido o ponto de partida para a história daqueles dois amantes desconhecidos. O vento soprava de norte, as nortadas sempre haviam sido a sua maior razão de queixa nos Invernos solitários da sua vida e estava habituada a socorrer-se da roupa mais quente, da sobreposição em camadas de calor, de luvas, gorros e cachecóis. Naquele dia, ao perscrutar o armário, aquela peça parecia chamar por si. Enquadrou-a na indumentária que havia destinado, enrolou-o ao pescoço e saiu, ensonada e preguiçosa rumo a mais um dia de trabalho. Parou no caminho para um expresso, remédio contra o torpor matinal e, apressada, atravessou a rua em direcção ao escritório. Enquanto aguardava o aval do semáforo, cruzou o olhar com um desconhecido que esperava do lado oposto.  Um sopro de vento distraiu-os por instantes e o lenço dela voou e foi parar nas mãos dele. Sorriram-se mutuamente. Desejaram-se mutuamente. Verde. Caminharam dispostos a sorrir mais de perto. Roçaram, ombro com ombro, mão com mão. Ela sentiu o seu aroma, ele deixou-se inebriar pelo dela. Queriam-se. Estacaram os seus intentos e num ímpeto, abraçaram as suas mãos. Ele puxou-a no sentido que as suas pernas o levavam e disse-lhe apenas "Anda!". Os restantes passos dados diluíam-se já na memória, recorda-se de caminhar a seu lado em silêncio, atravessando um jardim, de lhe sentir o nervosismo nas trémulas mãos, de uma chave, de um quarto. Recorda-se de ser vendada com o lenço, com o culpado de tudo, de sentir na pele o toque de umas mãos gélidas ao início. Peça por peça, camada por camada, o seu corpo foi sendo posto a descoberto. Sentiu-se frágil e à mercê de um desconhecido mas surpreendentemente, isso não a impediu de se deixar levar. O aroma que o corpo dele emanava junto ao dela, hipnotizava-a, telecomandava-a a deixar-se explorar. E o lenço, passava de canto em canto, dos olhos para a boca, da boca para os seios, dos seios para os pés e dali finalmente para as suas mãos, constritas agora num laço apertado mas ainda assim solto o suficiente para não a magoar. No fundo sabia que queria tudo aquilo. Eram dois amantes desconhecidos mas investidos em se desfrutar, em se conhecer mais e mais profundo, em se dar a perceber, em partilhar o prazer de uma entrega livre de emoções. Só as emoções decorrentes do sexo que queriam. Ele percorreu-lhe toda a extensão da sua pele, tacteando cada imperfeição num perfeito degustar, deu-lhe o prazer de a fazer explodir em toques exímios no seu clitóris, deu-lhe a provar o sabor da sua excitação, deu-lhe a sentir o tamanho do seu desejo em investidas poderosamente deliciosas. Não usaram palavras, entenderam-se por gemidos, por ofegares, por gestos e movimentos ora assertivos, ora lânguidos. No fim, sucumbiram ambos ao cansaço de uma maratona de luxúria. Fecharam os olhos. Ela acordou e sentiu aquele lenço vermelho chamar por si, aquele lenço vermelho que lhe flutuava agora em frente aos olhos, solto, suave e esvoaçante e que havia sido o ponto de partida para a história daqueles dois amantes desconhecidos. Ele acordou e decidiu que naquele dia iria a pé para o trabalho. Apetecia-lhe sentir o vento na cara, o frio no corpo.

True Colours #26

Assalto as memórias que teimam em se intrometer na banalidade dos dias, deixo-as penetrar o pensamento que resiste à força bruta com que se tentam impor. Demoro-me a imaginar, tentando dissecar cada pormenor, separando-os, fazendo uma colheita precisa para análise ulterior. Tento estancá-los, defini-los, descrevê-los, graduá-los. Penso linearmente agora, recuso deixar conspurcar a minha empreitada pelos sentimentos que me assolam. Faço uma lista. Há a sensação inigualável de te sentir crescer torneado pelas minhas mãos, manobrado suavemente para te fazer chegar onde te quero. Há o beijo que te deixo enquanto, sorrindo travessa, te percorro a pele até te encontrar. Há o primeiro degustar do sabor que é só teu. O sabor. O sabor que me alcança o paladar para te reconhecer de imediato. Há o chupar que começa devagar, demorando-se na ponta, enrolando a língua que te massaja suavemente para logo se entusiasmar em rápidos vaivéns. Há o sentir-te tocar bem fundo na garganta, quase me sufocando do prazer de te engolir todo. Há o lamber deslizante em toda a tua extensão que termina onde tudo recomeça. Há o gemer consolado que me grita aos ouvidos e que traduzo como um "não pares". Há o pressentir que assim que me tocares me encontrarás encharcada do tesão que sempre me provocas. Desisto. Concluo, agora que os sinais são por demais evidentes, que é da parte que se faz o todo e tudo conjugado se concretiza em momentos de puro deleite, em momentos vividos intensamente, em saboreares imprescindíveis, em prazeres incomparáveis.

True Colours #30



Havia-se embrenhado em pensamentos soturnos, em demónios que lhe ocupavam os espaços vazios da mente, em monstros difíceis de escorraçar. Havia inutilizado a libido, deixando-a perder-se nos meandros da escuridão que lhe toldavam o gosto pela vida, que lhe bloqueavam o prazer por o sentir distante de si, distante da sua pele, inexistente no seu íntimo. Havia-se perdido no caos intrínseco da vida, das questões mesquinhas, dos obstáculos auto impostos numa espécie de inclinação para a dor. Porque a dor lhe parecia mais verdadeira, ao menos essa sentia-a. Bastou um instante, um instante em que sentiu o click, em que se viu ao espelho e pensou que afinal tinha tanto para dar, tanto para se oferecer. Deambulou pelo corpo, na pele clara e macia, nas curvas que sabia serem o seu melhor atributo, nos pontos que a aceleravam, imaginando e consubstanciando em si as mãos que sabiamente a costumavam saciar. Sorriu para o espelho e ele sorriu-lhe de volta como que dizendo "sempre estive aqui, bastava quereres". Sentiu a sensualidade tomar conta dos seus movimentos, era consigo que dançava, uma dança da qual sempre retirara os melhores frutos, uma dança que sabia de cor os passos, os ritmos, os sons. Mexeu-lhe, como que percorrendo um mapa, procurando um destino, viajando em céleres compassos, almejando o prazer, almejando o despejar da lama que lhe tolhia os passos e a mantinha presa, incapaz de se mover. Acariciou, massajou, estimulou. Sentiu o líquido começar a desenvolver-se dentro de si, a soltar-se das paredes, escorrendo suavemente e preparando-a para a entrada, para a penetraçao final, para o último capítulo, para o explodir que já não oferecia a mais ténue resistência. A partir dali, tudo se voltou a encaixar. O prazer de si mesma, o amar do seu corpo, o vício do prazer, do orgasmo, do desenfreado fruir da carne que era sua. (Re) encontrou-se.